Música de câmara
A edição de novembro da Bravo! (Rubem Fonseca na capa) traz um texto meu sobre Cenas da vida na aldeia, de Amós Oz.
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Acordes assimétricos. Palpites dissonantes. Puro formalismo atonal.
A edição de novembro da Bravo! (Rubem Fonseca na capa) traz um texto meu sobre Cenas da vida na aldeia, de Amós Oz.
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Um casamento no fim, uma filha distante, um pai recém-falecido, um medíocre emprego de escrevente num cartório do Largo do Arouche: é nesse péssimo momento que encontramos Leon Zaguer, o protagonista quarentão de Olhos secos, sétimo livro de Bernardo Ajzenberg. Contada em terceira pessoa, a história de Zaguer é alternada na narrativa com o vibrante diário que ele próprio escreveu no final da adolescência, durante uma longa viagem por Israel, onde viveu em um kibutz, e Europa. Afiado, o romance exibe um personagem à míngua pela própria falta de autoestima e pela incerteza em relação aos ideais – aqueles do jovem do passado. Jornalista, ex-ombudsman da Folha, ex-coordenador executivo do Instituto Moreira Salles, tradutor, autor de Variações Goldman e Homens com mulheres (brincadeira com Men without women, de Ernest Hemingway), entre outros, hoje dono de um sebo tradicional de São Paulo, o Avalovara, Ajzenberg aceitou falar ao blog por e-mail.
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Professor de literatura alemã e ensaísta de longa data, o italiano Claudio Magris despontou para o cenário literário internacional com o sensacional Danúbio, de 1986, relato de uma viagem ao longo do rio que atravessa enorme porção do continente europeu, repleto de digressões sobre vidas e fatos ocasionados ou originados pelo Danúbio – às suas margens, passaram, em algum momento, de Canetti e Kafka a Freud e Eichmann. Magris é também um grande ficcionista, por conseguir embutir em suas histórias o talento de pensador. Que o diga o romance Às cegas, recém-editado por aqui (saiu na Itália em 2005) em tradução de Maurício Santana Dias. O livro antecipa as qualidades da novela O senhor vai entender, de 2006. Se esta obra, intensa e concentrada, apresenta a narrativa da interna de uma casa de repouso a seu médico, Às cegas traz um homem, Salvatore Cippico, relembrando casos de sua a certo doutor Ulcigrai. Ex-militante do Partido Comunista, Tore amealha, em sua biografia, a participação na Guerra Civil Espanhola e na resistência italiana, e também prisões no campo de concentração nazista de Dachau e na ilha de Goli Otok, comandada pelo ditador iugoslavo Tito. Ao mesmo tempo, garante ao médico ter sido um aventureiro dinamarquês, soldado na guerra contra Napoleão, rei da Islândia, autor de tragédias e de um livro de memórias.
A partir daí, pode-se imaginar que estamos falando de um louco. Nem tanto, ou pelo menos não se trata somente disso. O relato de Salvatore, além de lúcido, é erudito, estabelece inúmeras referências à literatura grega, sobretudo Odisseia e Medeia – há inclusive intertextualidade entre os dramas amorosos do personagem e o trágico episódio de Jasão e Medeia (ao passo que em O senhor vai entender Magris cria uma versão às avessas do mito de Orfeu e Eurídice). Nada nos impede de crer que a trama de Às cegas é mesmo a confissão ao doutor Ulcigrai ou, por outro lado, a inscrição num diário pessoal. Seja falando ou escrevendo, Tore medita sobre a natureza do curso histórico, sobre como os acontecimentos caminham para a destruição – de acordo com ele, “a História (...) tem suas trágicas necessidades de combater a barbárie com meios bárbaros”, é uma “mesa operatória para cirurgiões de pulso firme”. Salvatore acaba se dando conta de que o antigo ideal comunista não passa de ingenuidade (“falar é um consolo quando a revolução pela qual você viveu séculos e anos de vida é a dobra retorcida de um balão que estourou”), que Stálin e Tito são tão sanguinários quanto Hitler.
Às cegas é uma investida experimental, quase radical. O protagonista contrapõe vozes incessantemente conforme acumula os cacos de aventuras. Ao invés de confundir o leitor, o narrador, na sucessão de fragmentos, atrai e prende. Em sua urgência de contar, Salvatore chega a remeter a Riobaldo, o que não é surpresa, pois Claudio Magris comentou mais de uma vez em entrevistas o seu amor por Guimarães Rosa e Grande sertão: veredas. Relembrar é a única arma de Salvatore para escapar da ação impiedosa do tempo, a essa altura (Tore se aproxima do fim da vida) exíguo: “Se ninguém escuta, silenciar ou esvaziar os pulmões dá na mesma”. No fim das contas, o esforço não lhe traz qualquer alívio. A memória, tanto quanto a história, não passa de uma infindável aglomeração de cadáveres.
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Há pouco menos de um ano José Saramago esteve no Brasil para o lançamento mundial de A viagem do elefante, romance escrito em circunstâncias excepcionais, pouco depois de o laureado escritor passar várias semanas internado num hospital, à beira da morte. Embora estivesse longe de ser um livro irrepreensível, A viagem do elefante agradava por ser bem narrado, por transbordar bom humor e, em especial, por se apoiar em eventos históricos ao invés de chafurdar nas fábulas políticas que vinham contaminando a carreira do português. Ou seja, estava bem distante de O ano da morte de Ricardo Reis, Memorial do convento e História do cerco de Lisboa, mas muito acima dos pavorosos A caverna e Ensaio sobre a lucidez, duas mal sucedidas tentativas do gajo de doutrinar o planeta de acordo com seus ideais socialistas, duas investidas sobre o que ele, Saramago, considera a derrota do homem em um mundo regrado pelo dinheiro e pela falta de afeto entre as pessoas. Posição no mínimo contraditória, para alguém que até outro dia defendia o regime de Fidel Castro e, na década de 70, chegou a pregar a luta armada contra a ditadura salazarista.
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“emoções líricas muito aguadas, porque isto qualquer forma pode”. Nas longas conversações com Sylvester, Bacon cita bastante o próprio Rembrandt, seu principal modelo – o que diz muito sobre seus tocantes autorretratos –, acima até de Velázquez e Rubens, e assume a influência dos desenhos de Michelangelo (“não há dúvida de que fui influenciado pelo fato de Michelangelo ter feito os nus masculinos mais voluptuosos que já foram produzidos nas artes plásticas”). Revela carinho pelos melhores poetas, como Yeats ou Eliot, de quem idolatra A terra devastada e os Quatro quartetos e cujo poema Sweeney Agonistes inspirou-lhe um tríptico (também revisitou a trilogia Oresteia, de Ésquilo). E, por fim, Shakespeare, “que simplesmente deu um vigor à vida, por mais fútil que a gente possa achá-la, de uma forma como nunca alguém foi capaz de fazer. Ele simplesmente põe a vida à mostra de uma forma excepcional. Revigora-a com sua profunda falta de esperança e seu pessimismo, e também, pode-se dizer, com seu humor. E, num certo sentido, com seu total cinismo, verdadeiramente diabólico”.Marcadores: artes plásticas
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Conhecido no Brasil pelos filmes do fim da carreira - a chamada fase francesa -, que inclui A dupla vida de Véronique e a excelente Trilogia das cores, o polonês Krzysztof Kieslowski agora tem lançados em DVD dois trabalhos pouco conhecidos por aqui: Cinemaníaco, de 1979, e Acaso, finalizado em 1981 e lançado apenas em 1987, já que foi censurado pelo regime comunista. Vale a pena conferir as duas pérolas enquanto não aporta por aqui a prometida caixa da série Decálogo. Dado o momento turbulento vivido então pela Polônia, seria impossível que os dois longas não respirassem política. Nesse sentido, o suntuoso (pelos takes longos, a trilha marcante e os experimentos temporais da montagem) Acaso é bem mais explícito. Na trama, Witek, jovem estudante de medicina, acaba de perder o pai. Resolve deixar a faculdade e viajar para Varsóvia, porém quando chega na estação o trem está partindo. Kieslowski explora, então, três desfechos diferentes a partir da tentativa do protagonista de alcançar o trem. Witek tanto se torna ativista do Partidão quanto, em outra possibilidade, vira ativista social e, na última, um pequeno-burguês apolítico. Como sugere o título, o acaso é um elemento importante no filme - quem viu a Trilogia das cores sabe do apreço do cineasta pelo recurso -, mas aqui é utilizado de uma maneira irônica. Não importa o nível de engajamento político do personagem em cada um dos três desdobramentos: ele sempre terá seu destino regido pelo conflito de interesses entre as esferas pública e privada. Ética e coincidência pouco se distinguem em regimes de exceção, nos quais a liberdade de decisões individuais é limitada à escolha entre a adesão à ideologia vendida pelo poder ou a silenciosa resignação.
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Na Veja São Paulo desta falo da exposição do fotógrafo canadense Robert Polidori, organizada pelo Instituto Moreira Salles e em cartaz no Museu da Casa Brasileira.
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A edição de setembro da Bravo! (Henri Cartier-Bresson na capa) traz uma crítica minha sobre Meridiano de sangue, romance de Cormac McCarthy que acaba de ser relançado pela Alfaguara.
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Na matéria de capa da Veja São Paulo desta semana escrevo sobre a série de grandes exposições que entram em cartaz na cidade a partir de setembro. Entre elas estão Henri Matisse (Pinacoteca), Virada Russa (Centro Cultural Banco do Brasil), Henri Cartier-Bresson (Sesc Pinheiros), Robert Doisneau (galeria do Sesi) e Auguste Rodin (Masp).
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Dentre os melhores escritores brasileiros contemporâneos (Milton Hatoum, Sérgio Sant'Anna, Cristovão Tezza, Bernardo Carvalho etc.), o menos exposto à imprensa é Rubens Figueiredo. Pouco se vê o carioca dando entrevistas, publicando ensaios ou participando de festivais literários de grande porte. Sendo ele uma figura pública ou não, seus livros merecem receber do público a aceitação que obtiveram da crítica - dois deles, excelentes, venceram o Jabuti: a coletânea de contos As palavras secretas (1998) e o romance Barco a seco (2001). Depois das narrativas curtas de Contos de Pedro (2006), Figueiredo retoma uma obra de 1994, O livro dos lobos. "Quase completamente reescritos pelo autor", segundo a orelha da nova edição, os contos trazem as qualidades dos outros trabalhos, como a prosa contempletiva/digressiva e os personagens introvertidos, que vivem "existências rarefeitas" (para citar a narradora de "Um certo tom de preto") em realidades quase parelelas - há, nesses textos, pouca concretude espacial - nomes de cidade, países.
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Aproveitando a abertura, no sábado, da exposição de Henri Matisse na Pinacoteca, escrevi para a Veja São Paulo desta semana uma reportagem sobre os bastidores de uma mostra de porte internacional - como se dá o processo de organização, transporte e montagem.
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A Sala São Paulo teve um fim de semana “austríaco”. Em concerto incluído na programação do Cultura Artística, a Camerata Salzburg tocou no sábado e no domingo programas com peças de Haydn e, naturalmente, de Mozart, o mais ilustre salzburgueano. A regência foi do pianista Stefan Vladar, que a poucos dias das apresentações substituiu o violinista grego Leonidas Kavakos, diretor artístico da orquestra, com problemas de saúde. Ao menos no concerto de domingo, que pude assistir, a substituição repentina pesou: a falta de entrosamento entre o regente e os músicos era visível. O gestual esquisito de Vladar tampouco ajudou – além de repetitivo, o maestro parecia travado: mexia muito pouco o braço esquerdo. Ainda assim, as execuções foram excelentes, talvez porque os integrantes da orquestra, especializada em classicismo, devem tocar essas composições desde que nasceram. A Sinfonia No. 83 de Haydn, conhecida como A Galinha, abriu os trabalhos com seu andamento cheio de “paradinhas”, no início, e o segundo movimento bem humorado, que rendeu à obra seu subtítulo. Como solista no Concerto para Piano No. 19, de Mozart, Vladar compensou a inexperiência como regente com ataques velozes às teclas. Após o intervalo, outro trabalho de Amadeus, a popular Sinfonia No. 41, apelidada de Júpiter.
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(Texto publicado na edição especial Jornalismo x Literatura, da EntreLivros, em agosto de 2008).Marcadores: literatura, mídia
Não espere encontrar em O imitador de vozes o estilo convulsivo, caudaloso, de sentenças contrapontuais e repetições de expressões e ideias, tão marcantes nas obras-primas Antigos mestres e Extinção. No curto livro de 104 contos, Thomas Bernhard recorre à concisão como profissão de fé. São relatos que nunca ultrapassam uma página e cujas premissas o autor tirou de notícias de jornais, provavelmente os mais vagabundos: tragédias automobilísticas, longas depressões, conflitos familiares, casos de insanidade, trapaça e abandono, mas, acima de tudo, suicídios. Combinação lúgubre, tornada ainda mais angustiante pela narração distanciada e a linguagem propositalmente burocrática – o assassinato de quatro crianças pelo próprio pai soa tão natural quanto chupar um Chicabon. Pipocaram comparações com Kafka. Ambos lançam suas criações em um mundo pronto para devorá-los e testar sua sanidade, só que, enquanto em Kafka há sentimento de inferioridade do personagem, Bernhard imbui de cinismo os narradores. Antes que a sociedade os corrompa, eles, à espera da podridão moral, a corroem. Tal tendência a valer-se da bile alinha os contos de O imitador de vozes aos trabalhos mais longos do escritor. Para fazer uma alusão a música, uma das paixões de Thomas Bernhard (idolatrava Bach, Händel e Schumann), pode-se dizer que, enquanto seus romances são sinfônicos – amplos, repleto de cores e sensações cambiantes – essas micronarrativas representam formas menores, como sonatas, aliás, como prelúdios, de efeito menos duradouro porém mais imediato e fragmentário.
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Um dos nichos mais lucrativos do mercado editorial, já há algum tempo, é o dos diários e correspondência de artistas e intelectuais, sejam eles da literatura, da música, do cinema ou das artes plásticas. A nova integrante desse grupo é Susan Sontag, que ao longo da vida preencheu pilhas de cadernos com anotações, organizadas e publicadas por seu filho, David Rieff. No Brasil acaba de sair o primeiro volume desse arquivo, Diários 1947-1963, que compreende o período que vai dos 14 aos 30 anos de idade da ensaísta, morta de leucemia em 2004. Logo vem à mente a questão da violação da privacidade: podemos colocar nas livrarias aquilo que o autor, enquanto estava vivo, não o fez? No caso de Susan Sontag essa questão é facilmente respondível. Como explica Rieff, antes de morrer ela havia vendido seus papéis para a Universidade da Califórnia – assim, com certeza previa que seus escritos íntimos viriam à luz um dia. Da mesma forma, em uma passagem de 1957 Sontag escreve que “uma das principais funções (sociais) de um diário é exatamente ser lido escondido por outras pessoas”.
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De uma semana para cá, recebi vários e-mails e mensagens gentis me pedindo para não acabar com este espaço. Depois de hesitar um pouco, resolvi "ressuscitar" o blog. Ainda não sei se com a mesma frequência de atualizações de antes, mesmo formato etc. Vou escrevendo e depois decido como fazer. Benvindos de volta, então.
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Depois de três anos e meio de atividade, este blog chega deixa de ser atualizado a partir de hoje. Muito obrigado a todos pela leitura.
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A edição de julho da Bravo! (Selton Mello na capa) traz um texto meu sobre Estilo tardio, coletânea de ensaios do palestino Edward W. Said. O livro explora exemplos de como alguns grandes artistas lidaram com a proximidade da morte em suas obras.
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Poucos autores variam tanto de livro para livro quanto o espanhol Antonio Muñoz Molina. Se analisarmos sua sólida bibliografia, encontraremos coisas tão aparentemente distintas quanto o noir divertido, dinâmico e temperado com jazz Um inverno em Lisboa; a sinuosa catedral de vozes judaicas do inclassificável e perturbador Sefarad (que conta, entre suas dezenas de personagens, com Franz Kafka, Primo Levi e Walter Benjamin); o thriller soturno e filosófico Lua cheia; e o satírico Carlota Fainberg, investida mordaz no território dos intelectuais multiculturalistas. Mesmo assim, é impossível acusar Molina de falta de coesão ou personalidade. Tão contrastantes na superfície, seus romances ecoam uma voz única, sustentam-se em alicerces semelhantes. Por exemplo, a dependência psicológica dos protagonistas em relação ao universo político que os cercam - seja o infame regime do general Franco, seja a suposta liberdade da democracia pós-ditadura, igualmente contaminada por hipocrisias e contradições. Para não falar da visão de mundo e humor cáusticos.
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Falando em Sophie Calle, a Veja São Paulo desta semana traz uma pequena entrevista que fiz com a artista plástica francesa. Ela fala sobre Cuide de Você, exposição inspirada no e-mail de rompimento que recebeu de Grégoire Bouillier (leia abaixo). A mostra fica em cartaz no Sesc Pompeia até setembro.
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“É a mim que pinto”, escreveu Michel de Montaigne na introdução de seus magníficos Ensaios, avisando ao leitor que ele, o autor, é a matéria de seu livro. O escritor franco-argelino Grégoire Bouillier segue a cartilha do filósofo: em uma das entrevistas que deu nos últimos dias por conta de sua participação na Flip, afirmou que tudo é verdade e biográfico no que escreve. A postura fez com que sua produção fosse comparada à de Montaigne – não só por recorrer a aspectos autobiográficos, mas por lançar mão de recursos ensaísticos. Nos trabalhos de Bouillier, como o recém-lançado no Brasil O convidado surpresa, a tendência do narrador à observação consiste em, no mínimo, dois terços do valor do livro. Seja como for, ainda é possível encontrar outras filiações além de Montaigne. Thomas Bernhard, por exemplo, mencionado numa passagem do livro e parafraseado no estilo de frases longas, com frases obsessivamente encadeadas, na repetição raivosa de algumas expressões e no humor ácido. Um crítico classificou O convidado surpresa como “Mrs. Dalloway filmado por Woody Allen”. Não é uma definição ideal, mas tem uma ponta de sentido, um pouco pela graça involuntária provocada pela comparação.
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Mais influente contista norte-americano das últimas três décadas (que o digam Denis Johnson, Richard Ford e David Means, três exemplos de herdeiros de qualidade), Raymond Carver também esteve no centro de uma ruidosa polêmica do mundo das letras: revelou-se que um de seus livros de maior sucessos, a coletânea What we talk about when we talk about love (1981), havia sido completamente transformado por Gordon Lish, seu editor na conceituada casa editorial Knopf. Lish reduziu à metade o volume. Mudou detalhes das tramas, trocou nomes de personagens, inventou novas passagens e desfechos e, acima de tudo, mutilou a extensão das frases. Carver se revoltou com a intervenção, porém o livro acabou publicado e, por ironia suprema, foi incensado pela crítica justamente pelo estilo tão minimalista, tão duro. As frases sucintas e lacônicas, comemoraram os resenhistas, dava àquelas histórias sombrias uma impressão ainda maior de crueza e amargura. Pipocaram comparações com Ernest Hemingway, outro mestre da curta duração.Marcadores: literatura
O momento do circuito teatral em São Paulo é impressionante. Nas últimas semanas o público da cidade pôde assistir a alguns dos principais atores do país - inevitável destacar os excelentes monólogos de Sérgio Britto (A última gravação de Krapp/Ato sem palavras 1, de Samuel Beckett, no Sesc Santana) e Fernanda Montenegro (Viver sem tempos mortos, inspirado em cartas e escritos autobiográficos de Simone de Beauvoir, no Sesc Consolação). Outra oportunidade interessante na cidade é a comédia As centenárias, em cartaz no aconchegante Teatro Raul Cortez até 26 de julho. O texto é da principal promessa do teatro nacional, o pernambucano Newton Moreno (Agreste, Assombrações do Recife Velho), e a montagem, dirigida por Aderbal Freire-Filho, é estrelada pelas veteranas Marieta Severo e Andréa Beltrão. Elas vivem duas carpideiras (mulheres pagas para entoar cantos fúnebres em velórios e rezar pelos mortos), as vetustas Socorro e Zaninha. Marieta e Andréa contracenam com apenas um ator, Sávio Moll, que movimenta bonecos no pequeno cenário. Depois que a Morte tenta raptar o filho de Zaninha, a dupla atravessa o Nordeste em busca de um lugar onde a "indesejada das gentes" (na expressão de Manuel Bandeira) não consiga chegar.
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O tema principal dos últimos livros de Philip Roth – essa espantosa sequência iniciada por Operação Shylock e O teatro de Sabbath – é a velhice e seus meandros, a maneira como o homem lida com a decadência física mental e, especialmente, a incapacidade de lidar com o fim. O animal agonizante, Homem comum e Fantasma sai de cena encabeçam a lista de tratados sobre o assunto, além do próprio Sabbath, ainda a sua obra-prima. Indignação, seu lançamento mais recente, de certa forma contorna a questão ao tratar de um jovem universitário, Marcus Messner, e, no entanto, a discussão sobre a morte segue presente. Pois Messner é um narrador morto (o que leva a imprensa brasileira a levantar comparações com Machado de Assis – Roth afirma em entrevistas admirar o autor de Brás Cubas), ou, na verdade, à beira da morte, alucinado pela morfina. Em um devaneio de três páginas, o personagem reflete sobre a inevitabilidade do fim, tão cara a Roth, formulando a velha dúvida de seus personagens: somos transformados em nada com a morte? Essa incerteza, acima das outras, é que os angustia, imersos que estão em contas mal resolvidas com o passado e o desejo incessante de manter a mente e o corpo ativos.
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A terceira edição da Dicta & Contradicta traz um artigo meu, "Palavras, palavras, palavras", sobre o escritor espanhol Javier Marías e seu romance Coração tão branco. A revista traz ainda uma entrevista exclusiva com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, ensaio assinado por João Pereira Coutinho, conto de Alexandre Soares Silva e poemas húngaros traduzidos por Nelson Ascher, entre outros destaques. É possível ler o índice da edição aqui.
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Em seu emblemático conto “O desenho no tapete” (incluído, em tradução de Paulo Henriques Britto, na coletânea A morte do leão), Henry James escreve que a obra de todo artista é sustentada por um único tema ou assunto, repetido às vezes ocultamente em todos os seus trabalhos, como uma figura de um tapete. Alberto Manguel recorre à tese jamesiana em um dos textos de À mesa com o Chapeleiro Maluco, e essa teoria pode ser aplicada ao próprio escritor argentino naturalizado canadense. A edição brasileira procura estabelecer uma unidade aos textos ali reunidos – supostamente inspirados em Alice no país das maravilhas e Alice através do espelho, eles se ligariam como estudos da insanidade, tanto que o título original é Novo elogio da loucura, referência, por sua vez, a Erasmo de Roterdã. Acontece que a loucura e a comparação com a dupla de Lewis Carroll aparecem em poucos desses “ensaios sobre corvos e escrivaninhas”. O que realmente Manguel estuda, da mesma forma que nos outros livros, é a paixão pela leitura e a maneira como ela afeta a nossa vida. Foi incluída até uma compilação de máximas e citações, as “notas para uma definição de um leitor ideal”.
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José Paulo Paes (1926-1998) foi um dos nossos últimos intelectuais encaixável na categoria de homens de letras – aqueles que militam com as palavras em diversas áreas e passam horas e mais horas colados à escrivaninha. Autor de poemas bem humorados, caracterizados pelo minimalismo e pelos jogos de palavras, e de livros infanto-juvenis, era também um de nossos principais tradutores: trabalhava com diversos idiomas e, para se ter ideia de sua amplitude linguística, verteu de Laurence Sterne (o maravilhoso e complicado A vida e as opiniões do cavalheiro Tristram Shandy) a Edgar Allan Poe, de Konstantinos Kaváfis a Edmund Wilson, de Henry James a Ovídio. Por fim, Paes escrevia ensaios memoráveis, coligidos há pouco tempo por Vilma Arêas na coletânea Armazém literário. Os 23 textos do volume encantam pela linguagem cristalina e despida de atavios desse paulista nascido em Taquaritinga, porém paulistano de coração, morador da Barra Funda. Para sorte dos leitores, a prosa de Zé Paulo (como era chamado pelos amigos), que passou pouco tempo no ambiente universitário, não foi contaminada pelo jargão acadêmico.
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"Todas as obras de Degas são sérias. Por mais divertido, por mais alegre que ele às vezes tenha parecido, seu lápis, seu pastel, seu pincel nunca se abandonam. A vontade domina. Seu traço nunca está suficientemente perto do que ele quer. Não alcança nem a eloquência, nem a poesia da pintura; busca apenas a verdade no estilo e o estilo na verdade. Sua arte se compara à dos moralistas: uma prosa das mais límpidas que encerra ou articula com intensidade uma observação nova e verdadeira.Marcadores: artes plásticas, citações
Estou sorvendo devagar, um pouco por dia, 125 contos, caudalosa coletânea de Guy de Maupassant traduzida por Amilcar Bettega, ele próprio um contista competente. O que mais impressiona nesses textos é a visão negra que o escritor tinha do amor. Novidade nenhuma nisso, visto que Maupassant (um dos grandes de seu tempo, comparável a Tchekhov, Machado e James na arte da narrativa curta) via pouca coisa com bons olhos: costumava encerrar seus contos com um lance mórbido, enlouquecimentos e suicídios são recorrentes nas histórias, e o tom fantástico de algumas delas advém, como observa Noemi Moritz Kon no prefácio, do próprio desequilíbrio mental dos protagonistas (o elemento fantástico é fundamental nos famosos "O Horla"e "A mão"). Mas em nenhum outro assunto o francês destilava tanto desgosto e desesperança quanto nos relacionamentos amorosos, sempre condenados a desfechos infelizes, sejam eles trágicos (o ciumento de "Louco?" sossega somente quando assassina o suposto amado de sua mulher - um cavalo) ou cômicos (os dois amantes de "O mal de André" não conseguem chegar às vias de fato por culpa de um bebê que não para de chorar). Os apaixonados de Maupassant cortejam inapelavemente o ridículo em busca de afeto. Caso da empalhadora de cadeiras que passa a vida inteira dando seu dinheiro suado a um farmacêutico que não faz ideia de quem ela seja. Ou do funcionário público que descobre as traições da esposa morta quando tenta vender suas joias e descobre que não são falsas, como ele supunha, e sim valiosíssimas, presentes de um admirador abastado.
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Jornalista gaúcho inicialmente conhecido pelo trabalho nos primeiros tempos da Bravo!, Michel Laub deu início à carreira de ficcionista com duas obras promissoras e delicadas, cujas limitações estavam justamente na singeleza: Música anterior (2001) e Longe da água (2004). O segundo tempo, de 2006, é um passo adiante: mantém a sobriedade da prosa dos anteriores e aprofunda os conflitos familiares de dois irmãos - o pano de fundo da história é o "Gre-Nal do século", realizado em 1989. O gato diz adeus, recém-chegado às livrarias, explora os pontos de vista de quatro personagens: o escritor Sérgio, sua ex-esposa, a atriz Márcia, o novo marido de Márcia, o professor Roberto, e a estudante universitária Andréia. A inspiração para a estrutura de pequenos depoimentos alternados, o autor explica em uma nota, vem de Enquanto agonizo (William Faulkner), A caixa preta (Amós Oz) e A chave (Junichiro Tanizaki). A sombra desses três grandes livros, entretanto, não obscurece a ótima novela de Laub, que trata da estranha maneira dos casais de conciliar raiva e ternura, mas também de como a ficção funciona como instrumento de redenção, um tema antigo, que ainda rende bons frutos.
Uma das principais qualidades de O gato diz adeus é o modo como a afeição e o ódio do leitor pelos quatro personagens são conduzidos pelos depoimentos que se cruzam. Houve, durante o processo de escrita, preocupação de criar esses perfis, por assim dizer, incertos?
Preocupação específica não, mas entendo que haja esse efeito. Dá para dizer que o livro tem dois personagens principais, Sérgio e Márcia, e imagino que as falas deles sejam acompanhadas com mais interesse. As dos outros, Roberto e Andréia, estão ali como uma espécie de instrumento para esclarecer/confundir essa trama central. A Andréia é uma estudante de 18 anos, que não poderia ser muito articulada – o que talvez a faça ficar mais opaca na comparação com três personagens mais vividos. O Roberto em alguns momentos é a voz moral da história (ou supostamente moral), e vozes morais tendem a ser meio chatas.
Ao relacionar a história a um romance do personagem Sérgio, como evitar o clichê de que tudo se explica com a literatura, uma armadilha habitual da metalinguagem?
Respondo ao contrário: como fugir do clichê de que é proibido usar metalinguagem? Tudo depende de o livro ser bom ou não – se for, qualquer recurso que use será válido; se não, nada se salvará. Sem entrar no mérito da qualidade, a metalinguagem de O gato diz adeus não está ali para questionar o “estatuto da literatura” ou coisa assim, mas para cumprir uma função que é bem específica na história, está a serviço da narrativa mesmo – ou seja, o objetivo é o mesmo de uma narrativa tradicional, linear.
Sérgio cita o conto do David Foster Wallace em que o narrador se pergunta sobre se não seria melhor para a obra dele ter passado por um campo de concentração. Esse questionamento já lhe ocorreu, visto que sua obra trata sempre de dramas de relacionamentos e nunca de grandes traumas coletivos (a não ser que consideremos o Gre-Nal de O segundo tempo)?
Difícil dizer, mas acho que não. O trecho é irônico, porque esses traumas dizem muito mais respeito à maneira como você é enxergado pelos outros – no caso de um escritor, a questões de visibilidade, fama – do que com as qualidades literárias da obra em si. Milhões passaram por campos de concentração, e só há um Primo Levi para escrever brilhantemente a respeito (provavelmente porque era Primo Levi, e não porque passou por Auschwitz). Tenho certeza de que ele preferia ter sido mais feliz em sua vida pessoal – e seria um escritor tão bom quanto, só que tratando de outros temas.
Seus três primeiros trabalhos passam pouco das 100 páginas, e O gato diz adeus não chega nem a isso. Você acredita ser um ficcionista de fôlego curto ou planeja, mais para frente, trabalhar em uma narrativa longa?
Depende do que você chama de “fôlego”. Qualquer escritor que tenha o mínimo de domínio técnico consegue escrever livros de 200, 300 páginas. No Segundo tempo eu poderia ter tranquilamente escrito duas vezes mais, dando todos os detalhes do mundo do futebol na época em que se passa a história, por exemplo. Em O gato diz adeus daria para estender cada uma das tramas laterais do enredo – como a rivalidade profissional do Sérgio e do Roberto, o histórico de depressão da Márcia, a vida de estudante da Andréia, etc. Mas em todos esses casos eu preferi me concentrar num único drama, que, ao contrário do que parece, é razoavelmente longo (as narrativas sempre giram em torno de um eixo muito pequeno, e é difícil manter isso por cem páginas que seja). A opção se deu por um motivo básico: gosto de ler livros com desse tipo de estrutura (que tecnicamente define a novela, mais até do que a extensão). E quando você escreve, faz isso para você mesmo como leitor, antes de mais nada.
Mas, como gosto também de livros com estrutura menos fechada, é possível, sim, que faça coisas maiores e mais dispersas no futuro.
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Como bem sabem os leitores brasileiros de bom gosto e, principalmente, com senso crítico, um dos melhores cronistas do país é português. Nossa imprensa opinativa não é exatamente um prodígio: vários comentaristas políticos têm rabo preso com fontes, partidos e mesmo com sua ideologia pessoal, ao passo que os culturais sofrem com a dificuldade de escapar dos eventos de agenda e da amizade com artistas – vale ressaltar, contudo, que há poucas e memoráveis exceções. João Pereira Coutinho divide o topo da lista com outros dois ou três por unir capacidade analítica à relevância tão ausente em nossos formadores de opinião. Não basta opinar; é preciso argumentar, e isso Coutinho faz sem medo de reações raivosas de leitores e até de outros colunistas (afinal, como ser lúcido sem ser um pouco cruel?). A esquerda progressista, o feminismo e a hipocrisia do pensamento politicamente correto são alguns dos alvos prediletos deste atirador liberal que também sabe ser doce: os clássicos incontornáveis são devidamente celebrados, porém alguns contemporâneos, como Ian McEwan, Woody Allen e Stephen Sondheim (“um dos raros nomes que me faz acreditar na nobreza da arte”), igualmente recebem os elogios merecidos.
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A edição desta semana da Veja São Paulo traz uma matéria minha com perfis curtos de seis promessas paulistanas (ou, pelo menos, que residam em São Paulo) das artes plásticas: Rodrigo Bivar, Manu Maltez, Tatiana Blass, Rodolpho Parigi, Luciana Maas e Fabrício Lopez. A versão online da revista tem galeria de imagens com diversas obras dos artistas (ao lado, a água-forte Praça, de Manu Maltez).Marcadores: artes plásticas
Os brasileiros que já leram os romances do espanhol Enrique Vila-Matas, em especial Bartleby e companhia e O Mal de Montano, já depararam muitas vezes com o nome de Robert Walser (1878-1956), por quem Vila-Matas nutre uma saudável obsessão. Infelizmente, é provável que esse leitor não tenha tido a chance de ler o próprio Walser, visto que apenas um de seus livros chegou ao país – O ajudante, pela editora Arx. De todo modo, mesmo fora daqui o escritor suíço é mais citado e comentado do que propriamente lido, uma pena. Quem quiser se aventurar pode procurar as edições em inglês, disponíveis em variedade bastante satisfatória, ou mesmo as portuguesas. Foi graças à brava casa lusitana Relógio D’Água que tive o prazer de ler Jakob von Gunten e O salteador (pretendo entrar em breve no universo de suas narrativas curtas, em seleção publicada pelo New York Review Of Books). Além de Vila-Matas, um sem número de autores poderia ser citado como admiradores de Walser. Entre os antigos, Elias Canetti, Robert Musil e Franz Kafka; dos mais recentes, W.G. Sebald, J.M. Coeztee, Peter Handke e Alan Pauls.Marcadores: literatura
Lamentável a entrevista de Décio Pignatari publicada no Estadão de hoje. Ou hilária: depende do ponto de vista. Pignatari, que acaba de colocar na praça um novo livro, Bili com limão verde na mão, no qual troca a poesia pela prosa, repete as mesmas bobagens e preconceitos que a geração de concretistas – da qual ele próprio fez parte, ao lado dos insuportáveis irmãos Campos – vomitava cinco décadas atrás. Diz, por exemplo, que praticar uma narrativa significa acabar com a possibilidade de um leitor imaginar o enredo. Ora, uma afirmação dessas demonstra apenas a sua ignorância em relação à história da literatura (ele chega a reduzir a prosa de Grande sertão: veredas a uma mistura de Joyce e linguagem caipira). Proust, em seu ciclo caudaloso, como Henry James nos últimos romances, ou mesmo o Joyce evocado com tanta admiração por Pignatari, não se limitaram aos recursos dos escritores que os precederam, ao mesmo tempo em que souberam manter um diálogo riquíssimo com a tradição – o que seria de James sem Flaubert, Balzac ou, vá lá, George Elliot? Modernidade é revolucionar sem deixar de provocar prazer, é buscar inspiração em outras formas de arte – Proust, além de seu texto sinfônico, buscava inspiração no estilo do crítico de artes plásticas John Ruskin. O que defende o concretista – os jogos de linguagem soporíferos, que agradam mais ao próprio autor do que ao leitor – é o motivo pelo qual Finnegans Wake ou Memórias sentimentais de João Miramar continuam ignorados. Mas é claro que Pignatari tem todo o direito de escrever assim. Da mesma forma que nós temos o pleno direito de seguir mantendo distância.
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Dono de uma obra extensa, que contempla romances, contos e ensaios, o mexicano Sergio Pitol (nascido em 1933) finalmente tem um livro editado no Brasil. A esmerada novela Vida conjugal, como revela o título, trata das vicissitudes de um casamento – no caso, de Jacqueline Cascorro, a verdadeira heroína da história, e Nicolás Lobato. Enquanto ele enriquece com negócios do ramo hoteleiro e coleciona amantes passageiras, ela busca maneiras de se distanciar ao máximo do passado pobre, simbolizado pelas irmãs ignorantes e seus maridos medíocres. Jacqueline, por sinal, é um nome escolhido para ocultar Maria Magdalena, o verdadeiro, visto como provinciano demais. A maneira encontrada por ela de, não apenas ascender socialmente, mas principalmente anular a vergonha estampada em seu passado, é se aprofundar na arte. “Sua vontade de saber: antídoto para todas as suas infelicidades”. Balela. Jacqueline, que mal suporta pegar um livro na mão, necessita apenas das muletas da “alta cultura” para contrapor a orgulhosa ignorância de Nicolás, afeito à vida prática. Mais tarde, envolve-se em todo tipo de situação patética ao planejar com rapazes aproveitadores a morte do marido.
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“O clima espiritual do século 20 parece-me marcado por uma essencial exaustão”. A definição é de George Steiner, em Gramáticas da criação, precioso ensaio que saiu no Brasil há poucos anos e que merece continuar sendo consultado. Steiner investiga no livro, composto de uma série de conferências, o processo de criação das obras de arte – em qualquer uma das artes –, e perpassa caminhos sinuosos e reveladores, não poucas vezes polêmicos. A começar pelo fato de que o autor de Tolstói ou Dostoiévski acredita que a corrente relação (ou a ausência dela) que mantemos com Deus contribui decisivamente para a tal exaustão do clima espiritual. “A criação não surge do nada”, escreve, “sua atividade configura uma extensão necessária da natureza de Deus que representa a realização do ser absoluto”. Indo mais longe, decreta: “pode haver, haverá algum dia filosofia, literatura, música e arte de importância que tenham sido inspirados pelo ateísmo?”.
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Francis Bacon (1561-1626), filósofo brilhante:

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Em Jogo de Cena, de 2007, Eduardo Coutinho começava a derrubar as fronteiras entre documentário e ficção ao fazer depoimentos passarem pela boca de diversas mulheres, a maioria delas atrizes, de modo que o espectador não pudesse descobrir quem, de fato, vivera aquelas experiências. Tal desafio de demolição de gêneros é radicalizado em seu novo longa, Moscou, exibido no festival É Tudo Verdade e que deve entrar em circuito comercial em julho. Coutinho acompanha por três semanas o grupo de teatro Galpão, de Belo Horizonte, enquanto a trupe ensaia uma montagem de As três irmãs, o clássico de Tchekhov. Acontece que tanto ele quanto o Galpão sabem que é não é possível deixar a peça pronta em um tempo tão curto; dedicam-se, então, a fragmentos da obra, tentando construir um novo sentido para ela a partir de cacos. O que vemos são atores ensaiando passagens no camarim, ou em intervalos para o lanche; e também Coutinho criando novas possibilidades ao jogar as criações tchekhovianas em repetições de cenas e personagens divididos entre várias pessoas. Há trechos como o do violinista que apenas segura o instrumento em posição contemplativa, ao mesmo tempo em que uma música é executada por um aparelho de som à sua frente - o exemplo extremo, caricato, de representação. E homens e mulheres repartindo falas em jogral.
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Depois de um longo período de mistério por parte da Companhia das Letras, chega enfim às livrarias o novo romance de Chico Buarque, Leite derramado. Como tudo que vem com a assinatura do compositor, o livro vai fazer barulho entre público e imprensa – as opiniões dos críticos, por sinal, têm variado. A sinopse, até poucos dias atrás escondida a sete chaves pela editora, gira em torno de um narrador centenário, confinado ao leito de um hospital. De origem nobre, esse narrador, Eulálio d’Assumpção, retoma alguns séculos da história brasileira através de dramas familiares – sua linhagem já não possui a tradição de outros tempos, ele não suporta a saudade da esposa Matilde, precocemente falecida, e tampouco a indiferença da filha, a esta altura também idosa. O tom do texto, como onze de cada dez resenhas têm sublinhado, é machadiano em sua ironia autodepreciativa. Envolvente, a prosa de Chico remete mais ao interessante Budapeste do que àquele estorvo que é Estorvo. A literatura brasileira bem que precisava de mais obras assim, leves sem cair na facilidade dos best seller, e com potencial de atingir o grande público.
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Tão logo li que o Instituto Moreira Salles estava lançando uma nova publicação, pensei: “ué, mas qual é a necessidade, se já existe a piauí?”. E que surpresa agradável foi pegar para ler a quadrimensal serrote, classificada como “uma revista de ensaios, ideias e literatura”. Pois ela cumpre justamente a única lacuna grave da irmã mais velha, a ausência de textos críticos sobre cultura – seria perfeito se, como a New Yorker, a piauí aliasse perfis como os de David Remnick às análises de James Wood, Alex Ross e Anthony Lane. serrote (o título vem de um verso de Murilo Mendes, “tremo quando examino o serrote”) não apenas cumpre a missão de pensar a arte de qualidade; ela o faz sem resvalar no academicismo prolixo e vazio. Já no primeiro texto, o artista plástico Nuno Ramos disserta sobre o sambista Nelson Cavaquinho, com direitos a trechos iluminados:
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Nem a desorganização inacreditável – filas enormes, telão problemático, estacionamento trancado, cerveja quente – estragou o show do Radiohead em São Paulo. A banda inglesa cumpriu as expectativas (que não eram pequenas, diga-se) e fez trinta mil pessoas rebolarem os neurônios com um repertório impecável. A iluminação do palco, aliás, merece um elogio à parte. Algumas barras de ferro dispostas no fundo do palco bastaram para que cada canção tivesse uma sequencia de luzes própria e estonteante. No set list, como esperado, todas as dez faixas de In rainbows (2007). Uma ótima surpresa foi a inclusão de cinco músicas de Ok computer (1997) – geralmente o quinteto toca quatro. “No surprises” e “Airbag” ficaram de fora, mas os fãs puderam ouvir “Lucky” e “Exit music (For a film)”, menos comuns nas apresentações do grupo. Outros destaques: o arranjo (ainda mais) jazzy de “You and whose army?”, com Thom Yorke emulando Billie Holiday no vocal; a versão (ainda mais) dançante de “Idioteque”; a pegada (ainda mais) negra de “Reckoner”. Para não falar de “Paranoid android”, que ganhou uma coda quando Yorke, após o fim da execução, retomou a passagem lenta do hino e emendou “Fake plastic trees”. A se lamentar apenas a inclusão da eletrônica “The gloaming” (não funciona no palco) e do hit “terceiro-mundista” “Creep” – que, nos cinquenta e poucos shows desta turnê, só foi tocada no México, Rio e São Paulo.
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A edição de março da revista Bravo! traz uma crítica minha sobre Elza, a garota, novo romance de Sérgio Rodrigues. Confiram.
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Encarar o luminoso Entre os muros da escola como um microcosmo da multiplicidade racial da França é reducionista ao extremo. O filme de Laurent Cantet, ganhador da última Palma de Ouro, ataca melhor em outras frentes. A exemplo de como lidar com a autoridade na educação – tanto professores quanto alunos. Foi-se o tempo da tirania por parte dos educadores; na verdade, tal tirania tornou-se um tanto embaraçosa, nesses tempos em que a juventude mal absorve o conceito de conhecimento, quanto mais o de hierarquia. François, o professor de francês e protagonista do longa, percebe de cara isso e tenta apenas coibir desrespeitos excessivos. Acontece que nem ele é incapaz de falhar e agir impetuosamente, colocando tudo a perder na relação com aqueles filhos de imigrantes, hostis e grosseiros – o que, dada a situação deles, é plenamente justificável, uma vez que é tolice condená-los por se fecharem em território tão escorregadio. Cantet, espertamente, não cai na denúncia política vazia do preconceito. Seu filme, engrandecido pela abordagem documental (embora o diretor entenda que ser natural, usar atores amadores, não quer dizer resvalar no naturalismo; comemoremos a influência de Rossellini), explora a falência do modelo educacional e a necessidade urgente de retornarmos ao método do diálogo e troca de experiências e sabedoria, como em A República, de Platão, mencionado numa cena central. Para jovens condenados à criminalidade, saber a tabuada não passa de superfluidade. Conhecer a si mesmos, entender como o mundo funciona (e, aí sim, o roteiro retorna à questão do racismo contra imigrantes) além daqueles muros pode ser brutal e devolver a hostilidade, seria de utilidade maior.
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Impossível comparar o Milton Hatoum contista com o romancista – este é bem superior àquele. Ainda assim, A cidade ilhada, primeira coletânea de narrativas curtas do escritor amazonense, guarda surpresas. A começar pela estrutura dos textos, propositalmente desdramatizada, algo semelhante à da crônica autobiográfica (“Encontros na península”, sobre uma curiosa disputa entre leitores de Machado de Assis e Eça de Queirós) e mesmo do ensaio mais leve (“Uma carta de Bancroft”, sobre uma missiva rara de Euclides da Cunha). Os relatos herdaram dos romances a evocação idílica do passado, uma visão diretamente relacionada a Manaus, com seu mormaço aterrador e o clima próximo ao delirante, de tão úmido. Mesmo no exílio, os protagonistas devem a identidade à “cidade ilhada, talvez perdida” à beira do Amazonas. Não que necessitem retornar a ela; precisam apenas manter em vista essa suposta felicidade da juventude, que muitas vezes não passa de ilusão de quem não se habitua a um novo lar (“para onde vou, Manaus me persegue”, escreve um narrador).
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Aos poucos vão saindo os resultados do polêmico projeto Amores Expressos - no qual escritores brasileiros viajam para uma grande cidade do mundo e escrevem uma história de amor que se passa ali. Após Cordilheira, de Daniel Galera, chega às prateleiras O filho da mãe, de Bernardo Carvalho, que aportou em São Petersburgo ("cidade literária por excelência", reforça a orelha). O romance confirma a excelente fase vivida pelo autor, um dos melhores da literatura brasileira contemporânea e cada vez mais maduro. Bernardo sofreu com a irregularidade no início de carreira, quando ainda tentava provar a todo custo que era o Thomas Bernhard ou o Juan José Saer dos trópicos. Apesar de algumas boas ideias, títulos como As iniciais, Teatro e Aberração penam pelo excesso no uso de truques pós-modernos (paranoia, identidades trocadas etc.) e estruturas labirínticas que giram em torno de si sem chegar a lugar algum, para não falar no clichê de limitar as tramas a uma resolução metalinguística, com o intuito de dar uma reviravolta no final. Em suma, de tanto artifício, seus textos tornavam-se artificiais. Frios, sem vida humana.
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Um dos mais importantes autores modernos da Espanha enfim começa a ser publicado no Brasil. Trata-se de Juan Benet (1927-1993), cuja coletânea de contos Você nunca chegará a nada acaba de sair pela José Olympio. Benet fez parte da geração que rompeu com o nefasto realismo social que contaminou as letras espanholas logo após a guerra civil. No lugar do estilo pobre e da ideologia travestida de heroísmos dos precedentes, Benet, enormemente influenciado por William Faulkner, preferiu recorrer a fluxos de consciência, desdobramentos temporais, frases carregadas de adjetivos e metáforas, pontos de vista embaralhados e dimensões trágicas. Para isso, criou Región, território ficcional semelhante a Yoknapatawpha, do ídolo Faulkner, e Santa María, do uruguaio Juan Carlos Onetti. Como ressalta Bella Josef na introdução do volume, nas quatro narrativas incluídas as principais questões do autor são “desunião familiar, a substituição de valores éticos por uma inércia destrutiva, mais preocupado com o lado obscuro dos caracteres que com a profundidade psicológica”.
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Agrestes foi um dos últimos trabalhos inéditos publicados por João Cabral de Melo Neto – saiu em 1985. Re-editado há pouco pela Alfaguara, o livro sintetiza alguns dos temas prediletos do poeta pernambucano, desde as cenas recifenses até as touradas de Sevilha, passando por flashes da infância. De novidade mesmo, há a terceira parte do volume, “Linguagens Alheias”, na qual João Cabral tece loas a gênios da arte, incluindo alguns de seus modelos. Estão lá referências aos parceiros de verso W.H. Auden, Paul Valéry, Emily Dickinson e Murilo Mendes, mas também surpresas agradáveis, como a homenagem ao genial pintor suíço Paul Klee, de quem Cabral louva “o insano projeto/de envelhecer sem rotina”. Henry James não tem a mesma sorte: como uma criança travessa, o poeta ridiculariza as maneiras supostamente empoladas e a vontade de ser britânico do autor de As asas da pomba, fazendo uso até de inversões de gêneros masculino e feminino:
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Em um dos fragmentos incluídos em Aurora, Nietzsche fala sobre como somos incapazes de compreender um próximo; captamos apenas o efeito, as mudanças provocadas em nós por esse próximo. “Nós lhe atribuímos as sensações que os seus atos despertam em nós, dando-lhe, assim, uma falsa positividade inversa”, escreve o filósofo alemão. O casamento de Rachel, filme de Jonathan Demme transmite um pouco essa impressão. A Rachel do título (Rosemarie De Witt) prepara-se para casar dali a alguns dias com um cantor negro (aliás, o vocalista do ótimo grupo TV On The Radio): sua casa está cheia de artistas, de rock, jazz, música indiana e um punhado de outros ritmos, que tocam o dia todo à espera do matrimônio. A tranquilidade é rompida apenas com a chegada de Kym, vivida com perfeição por Anne Hathaway, que pela primeira vez ganha um papel à altura de sua beleza assombrosa. Com um histórico de internações por vício em drogas, Kym deixou uma clínica para assistir ao casamento.
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A edição de fevereiro da revista Bravo! (John Lennon na capa) traz um artigo meu sobre O bom soldado, o magnífico livro de Ford Madox Ford que acaba de ser reeditado pela Alfaguara.
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A questão da maturidade e do desejo dos adultos de adentrar a juventude é central para compreender Witold Gombrowicz – que o diga a sua obra-prima Ferdydurke (1937), sobre um escritor que acorda transportado para um mundo juvenil e associa-se a ele. Pornografia, de 1960, recém-publicado por aqui, radicaliza a discussão através de uma sátira ainda mais mordaz, por mais inacreditável que possa parecer (apenas Gombrowicz pode superar a si mesmo nesse aspecto). No pequeno romance, uma dupla de homens misteriosos e desocupados se hospeda na casa de um amigo no campo. Ali, deparam com a filha adolescente do tal amigo, Henia, e um companheiro seu de infância, Karol, e passam a planejar a união do casal - de uma maneira nem um pouco pornográfica, diga-se. Uma série de subtramas recheia a narrativa, desde a aparição de um agente do governo, encarregado da resistência aos nazistas, até uma senhora respeitável que procura por Deus em todos os cantos.
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A imagem artística que legamos de Flaubert, como se sabe, provém basicamente de sua correspondência. Estabeleceu-se ali a persona do esteta torturado, que passava madrugadas inteiras em busca de uma única frase – ou mesmo uma palavra, "le mot juste". Lamentava, após seis semanas de trabalho, ter escrito menos de dez páginas, de modo que a feitura de seus romances perdurava por anos. Ao escrever para os amigos, Flaubert fazia questão de ressaltar a importância da carpintaria estilística. "O estilo é a manifestação de uma dor mais profunda", escreveu ele à sua amada Louise Colet em 1853, período em que se debruçava sobre Madame Bovary. "Sem o amor da forma", afirma em outra ocasião, "talvez eu me tornasse um grande místico". Isolado em um pequeno vilarejo da Normandia, o francês trabalhava como louco por sua obra; via na solidão a única maneira de triunfar, de alcançar a Grande Arte. Nesse sentido, não havia o que ganhar com uma vida social ativa.
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John Updike morreu de câncer de pulmão, aos 76 anos. Dono de uma personalidade sossegada, pouco dado às competições do meio literário (riu delas em Bech no beco), Updike sempre preferiu trabalhar duro. Escrevia muito, até demais – romances, contos, poemas, críticas de livros e de arte (muito competentes, por sinal); era um homem de letras equivalente ao que havia na época de Edmund Wilson. A verdade é que Updike nunca teve o talento natural de Saul Bellow, Philip Roth ou Thomas Pynchon, para citar conterrâneos e contemporâneos, e era do esforço, da rotina de produzir diariamente, que vinha a qualidade de seus livros. Acabou injustiçado pelos críticos, que nunca o levaram a sério por abordar um tipo muito específico de personagem: o protestante branco e anglo-saxão de estados americanos como Connecticut e Pensilvânia, sua vida social e sexual, sua decadência física. Nada de metafísica e grandes ideias. A prosa rebuscada (era admirador de Proust e Nabokov) colaborou com a antipatia: muitos o acusavam de perfumar o texto para ocultar a falta de conteúdo. Ian McEwan foi um dos que souberam enxergar suas qualidades; maravilhava-se com as sentenças trabalhadas (nota-se a influência updikeana no estilo de Sábado e Na praia). Sobre essa prosa, Paulo Francis, exagerado, disse que só Updike chegava perto da excelência de Flaubert.
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Philip Roth não é jornalista. Ainda bem. Ficamos livres dos velhos cacoetes de repórteres nessa pequena pérola que é Entre nós, coletânea de conversas do bardo de Newark com outros escritores. Ao invés de fazer meros questionamentos aos colegas, Roth formula pequenos ensaios, levantando a bola para que seus entrevistados aprofundem a questão. Se eles concordam ou não com o posicionamento desse interlocutor inusitado, não importa. O autor de O teatro de Sabbath não hesita em fazer uso da sensibilidade de romancista: sua vantagem em relação aos chamados jornalistas literários das décadas de 50 a 70 (Talese, Wolfe, Mitchell) é a capacidade de criar imagens que vão além da mera descrição visual; disseca os entrevistados como se fossem criações literárias. Ao escrever sobre Primo Levi, ressalta que o italiano "mais parecia uma criaturinha buliçosa da floresta (...) Não admira que as pessoas estejam sempre lhe contando coisas e que tudo seja registrado fielmente antes mesmo de ser escrito: quando ele escuta, Levi fica tão concentrado e imóvel quanto um esquilo ao observar algo desconhecido do alto de um muro de pedra".
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Morto em 1992, quando pouca gente ainda se lembrava de sua existência e sua obra estava praticamente toda fora de catálogo, Richard Yates aos poucos foi ganhando status de autor cult, admirado sobretudo por colegas de profissão. Agora que seu romance de estreia Revolutionary Road (1961) foi levado às telas com Kate Winslet e Leonardo DiCaprio (direção de Sam Beleza Americana Mendes), Yates caiu – ou vai cair – na boca do público. O livro acaba de ser editado no Brasil pela Alfaguara com o risível título Foi apenas um sonho, e merece uma leitura atenta, ainda que desconfiada, visto que Yates nem de longe é o gênio que seus sucessores proclamam ser (ora, gênio é o poeta irlandês cujo nome é um anagrama do seu...). Foi apenas um sonho passeia pelos mesmos dilemas de uma linhagem tradicional de autores norte-americanos – escrevi sobre ela ao falar de James Salter meses atrás. A dos protestantes suburbanos dedicados à dramaticidade do cotidiano e adorados pelos editores da New Yorker (por sinal, não foi o caso de Yates, que teve diversos contos recusados pela revista).
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As listinhas básicas de todo começo de ano, divididas em várias categorias. Apenas um detalhe. Dividi os livros entre "novos", ou seja, lançados pela primeira vez no Brasil em 2008, e reedições. Isso explica um livro de Henry James, que é de 1897, estar na lista dos novos, e o de Javier Marías, de 1992, na outra.
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A edição de janeiro da revista Bravo! (Vinicius de Moraes na capa) traz um texto meu, uma espécie de resenha em quadrinhos de O reino do amanhã, de J.G. Ballard - as ilustrações são de Bruno D'Angelo. A ideia veio da divertida crítica do Village Voice sobre o novo romance de Philip Roth, Indignation. Enjoy it.
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"A ciência da harmonia pode fazer todos os progressos que se queira supor, ver-se-á sempre com assombro que Mozart chegou ao fim de todos os caminhos. Assim, quanto à parte mecânica de sua arte, jamais será vencido. É como um pintor que tentasse fazer melhor que Ticiano, quanto à verdade e a força das cores; ou melhor que Racine, quanto à beleza dos versos, a delicadeza e a conveniência dos sentimentos.
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Há trinta anos, morria aquele que talvez seja o maior contrabaixista da história do jazz, Charles Mingus. Em homenagem a ele, posto um vídeo de 1964 no qual o sexteto de Mingus toca "Take The A-Train", clássico celebrizado por seu ídolo Duke Ellington. Reparem no solo de clarone de Eric Dolphy.
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Todo crítico faz questão – e com razão – de ressaltar livros que combinem reflexão e entretenimento. Seis problemas para dom Isidro Parodi é assim. Lançado sem muito alarde pela editora Globo há alguns meses, essa coletânea de relatos policiais tem como autor H. Bustos Domecq, pseudônimo, como se sabe, criado por Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares no início de suas carreiras. Tendo em vista a obra incomum da dupla argentina, não daria para esperar algo ortodoxo de um trabalho conjunto. Daí o fato de o detetive dom Isidro Parodi ser um presidiário, acusado injustamente há mais de dez anos de cometer um homicídio. Ele nunca é, portanto, a atração das tramas: dom Isidro recebe alguém desesperado em sua cela, ouve sua história e o crime nela envolvido e, ao final, dá o veredicto sobre o caso. Uma estrutura esquemática, repetitiva, que dá ensejo a casos sem valor de inveja, cobiça e adultério, coisa bem folhetinesca. Os enredos engenhosos, até cerebrais, reforçados pela prosa erudita de Borges e Bioy, disfarçam a frivolidade dos temas. Ao mesmo tempo que empolgam, fazem pensar (lembram Chesterton, inclusive). E induzem, inevitavelmente, o leitor a procurar ali as características dos dois autores. Não vai se arrepender: lá estão os pesadelos oníricos e carnavalescos de Adolfito e os desdobramentos temporais e obsessões orientais de Georgie.
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Algumas passagens poderosas de Danúbio, de Claudio Magris, lançado no Brasil pela Rocco há alguns anos e agora reeditado:
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Gonçalo M. Tavares – Aprender a rezar na era da técnica. O lusitano se confirma como uma das grandes forças da literatura de língua portuguesa com este romance, que encerra a excelente tetralogia O Reino – que inclui também A máquina de Joseph Walser, Um homem: Klaus Klump e Jerusalém. Estamos mais uma vez diante de forças contrastantes: corpo e mente, ódio e compaixão, a certeza da potência humana e sua cambaleante relação com a Providência. O médico e futuro político Lenz Buchmann crê na razão e na força, física inclusive, como instrumentos de sucesso, capazes de subjugar qualquer ser – "o cérebro, visto de perto, tem a função de arma", pensa. Para Buchmann, "a eletricidade tornara ridículas certas intuições sobre o divino" e "o bisturi é a voz da ética". Acontece que Tavares está cada vez mais inserido na tradição dos grandes moralistas, e logo coloca seu protagonista contra essas certezas. Aprender a rezar na era da técnica é um pequeno tratado filosófico sobre como tentamos buscar Deus, não importa sob que forma, mesmo quando estamos negando-O.
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Em todos os anos seria possível apontar John Zorn como o nome do jazz do período, tão incessante é a sua produção. Somente em 2008, por exemplo, foram seis lançamentos. A diferença é que, ao contrário de outras eras, quando sua produtividade às vezes resvalava no excesso – rendendo, dessa forma, obras nem sempre inspiradas –, neste ano o saxofonista não errou. Melhor: ressuscitou um de seus melhores projetos, o sexteto Bar Kokhba, para gravar um punhado de canções do chamado "book of angels". O resultado é Lucifer, outra investida na música judaica. Sua fusão de klezmer com jazz também merece atenção nos volumes mais recentes da série Filmworks, em especial The Rain Horse e Sholem Aleichem (dedicado ao escritor iídiche). Ainda houve tempo para um divertimento: Zorn brincou com surf music em The Dreamers, além de ceder composições (outra vez do "book of angels") para o trio Medeski, Martin & Wood gravar em Zaebos.
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A edição de dezembro da Bravo! traz um artigo meu sobre as "manias" de alguns prêmios literários internacionais. Já o site da revista publicou minha crítica de As nuvens, romance do argentino Juan José Saer. E sempre esqueço de avisar que é possível ler comentários meus sobre exposições em cartaz em São Paulo semanalmente na revista Veja São Paulo. Caso da última individual de Nuno Ramos, Só lâmina, e de José Saramago: A consistência dos sonhos, sobre o escritor português.
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Comentários rápidos sobre alguns filmes vistos no cinema:
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Não me canso de lamentar a presença tímida de Thomas Bernhard nas livrarias brasileiras. Para quem não domina o alemão e não pode lê-lo no original, a dica é adquirir as edições em inglês. Outro caminho é procurar as versões portuguesas. Alguns livros saíram lá e não aqui, caso de Antigos Mestres, traduzido pela editora Assírio & Alvim. Neste romance de 1985 (mesma época dos aterradores Extinção e Árvores Abatidas) Bernhard posiciona sua metralhadora verbal contra seus alvos recorrentes: a igreja e o Estado austríaco, bem como a população do país, que se deixou, segundo ele, hipocritamente manipular ao longo do século passado – primeiro pelo partido nacional-socialista, depois pelos católicos. Em todas as salas de aula, limitou-se a substituir a suástica pela cruz.Marcadores: artes plásticas, literatura, música
Novelas em que papel vira pele e linguagem, suor*
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A edição de novembro da revista Bravo! (Woody Allen na capa) traz um texto meu sobre o escritor alemão Ernst Jünger e seu romance Nos penhascos de mármore.
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Há exatos dez anos, José Saramago foi o primeiro escritor de língua portuguesa laureado pela Academia Sueca com o Prêmio Nobel de Literatura. De lá para cá, o gajo enveredou pelos caminhos da ficção alegórica que já contaminara os dois livros anteriores ao prêmio, Ensaio sobre a cegueira e Todos os nomes - ambos até bons, em especial o segundo, porém inferiores à produção até O Evangelho Segundo Jesus Cristo. Nessas parábolas sobre o mundo contemporâneo, pouco importa a localização espacial e temporal, como se cada uma delas dissesse respeito a cada um de nós, independente de país, credo e classe social. Não deu certo, visto que o panfletarismo do autor, sempre fiel ao velho Partidão, contaminou a escrita e deu origem, por exemplo, aos horrorosos, messiânicos e politicamente corretos A caverna e Ensaio sobre a lucidez.
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Os desajustados, de John Huston. Alexandra Alpha, de José Cardoso Pires. What next?, de Elliott Carter.
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W.G. Sebald - Vertigem. Faltava apenas este livro para que toda a ficção do alemão, morto em 2001, estivesse disponível no Brasil. Em seu trabalho de estréia, Sebald ainda não atingira o domínio pleno de seu estilo peculiar, tão marcante em Austerlitz, Os emigrantes e Os anéis de Saturno. As frases não são tão longas, e a relação entre texto e imagem ainda é um pouco literal demais. Qualidades como os mergulhos no interior do personagem principal e as incursões no território ensaístico (sobre literatura, história, sociologia, arquitetura etc.), de toda forma, estão lá. Quem faz o relato é um professor alemão, docente obscuro de uma universidade no interior da Inglaterra – como o próprio Sebald até então. Ao passar por Viena, Verona, Veneza e o seu pequeno povoado de origem, na Alemanha, ele repassa as trajetórias de um certo dr. K (Kafka), de Casanova e de Henri Beyle (vulgo Stendhal). A Europa que encontra nesse caminho errante está em cinzas, incapaz de superar erros sangrentos do passado, preferindo, assim, varrê-los para debaixo do tapete.
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Cinco grandes livros de contos que li nos últimos meses:
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No site da Bravo!, duas críticas: uma delas sobre Seu Rosto Amanhã: 2. Dança e Sonho, de Javier Marías, e a outra sobre Heranças, de Silviano Santiago.
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São cerca de 50 páginas que se lêem em uma única sentada, mas a impressão da leitura permanece por muito mais tempo. É a impressão deixada pelo conto O senhor vai entender, do italiano Claudio Magris, autor do também ótimo Danúbio. O enredo chega a ser simplório: uma mulher, interna de uma espécie de sanatório, conta a um interlocutor (aparentemente o presidente da casa) sua historia de paixão e ódio com um célebre poeta, de modo que seja possível retomá-la – uma inversão do mito de Orfeu e Eurídice. Essa narradora, em teoria insana, exala lucidez ao dissertar sobre a falta de lucidez de uma relação. Hipócrita, possessiva, afundada no auto-engano a ponto de soar invencível e inalcançável em seu orgulho próprio: exalta a si para destruir o outro, homem dependente, sem talento, calcado numa fama desmerecida; massacra-se para reconstruir o mesmo outro, porque a força dele é também a sua. Nesse sentido, amar é submeter-se a uma infecção (imagem recorrente no livrinho), e, mesmo conhecendo o perigo, avançamos com firmeza rumo ao contágio.
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Uma das pedras fundamentais da história do teatro, Tchekhov é, também, um desafio para as companhias: como encenar suas últimas quatro peças, A gaivota, Tio Vânia, As três irmãs e O jardim das cerejeiras? A dificuldade encontra-se no tom dessas pérolas, completamente perdido em algum lugar entre a comédia e a tragédia. Não é raro que as montagens debandem para um dos lados e percam a ambigüidade pedida pelos textos: usam o riso exagerado como se fôssemos feitos só de alegria ou o choro que esquece algumas ironias patéticas e inevitáveis do cotidiano. O diretor Celso Frateschi resolveu se arriscar no território escorregadio ao levar Tio Vânia ao palco de seu Ágora Teatro, em São Paulo.
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E hoje finalmente se completa o centenário de morte de Machado de Assis, tão martelado ao longo do ano por jornais e revistas. Como escrevi há pouco tempo sobre outro importante centenário machadiano, o de Memorial de Aires, vou apenas compilar links. Começando por três grandes contos seus: "Missa do galo", "Um homem célebre" e "A desejada das gentes" (e tantos outros poderiam ser citados). E ainda dois ensaios valorosos e recentes sobre sua obra: o primeiro deles do economista Eduardo Giannetti, que se aventura pelos ditos e não ditos de Bento Santiago e Dom Casmurro (para assinantes Uol); o segundo, de Daniel Piza, é uma análise de minúcias da prosa iluminada do gênio. Se tais textos não agradarem, caro leitor, pago-te com um piparote, e adeus.
Marcadores: literatura
É sempre um prazer ler um novo livro de Alberto Manguel. Ensaísta de mão cheia, sempre afeiçoado à tarefa de discutir a literatura, a leitura e tudo o que as envolve, o argentino naturalizado canadense tem lançada no Brasil uma compilação de conferências, A cidade das palavras, com o subtítulo “As histórias que contamos para saber quem somos”. Como se fosse uma daquelas figuras borgeanas que vêem sua história como um eterno prosseguimento de outra, anterior, idêntica, impassível, Manguel dá prosseguimento à sua incessante discussão sobre a importância prática das narrativas em nossas vidas. Extrai daí alguns resultados pertinentes.
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São gente boa - ninguém de nós sonharia jamais
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A edição de setembro da revista Bravo! (Machado de Assis na capa) traz um artigo meu sobre literatura israelense, aproveitando os lançamentos de Rimas da vida e da morte (Amós Oz), Desvario (David Grossman) e A mulher de Jerusalém (A.B. Yehoshua).
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Decepcionantes os novos filmes de dois dos cineastas brasileiros mais importantes – Fernando Meirelles e Walter Salles. No caso de Meirelles, Ensaio sobre a cegueira é, para calar os argumentos de quem pretendia discutir os méritos e principalmente deméritos da adaptação do romance de José Saramago, bastante fiel ao original. E ainda assim não funciona, muito pelo fato de Meirelles não ter bancado na montagem cenas como a do estupro, que ficou estilizada e palatável, sem a crueza narrada pelo português. E se Saramago cede ao espírito politicamente correto apenas no fraco final de seu livro, Meirelles deixa por todo o filme as mensagens edificantes, repetindo os erros de O jardineiro fiel.
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Para cada letra do alfabeto, um nome. Para cada nome, uma pessoa. É assim, explicando as etimologias de cada nome e desenvolvendo, a partir disso, biografias, que Maria Esther Maciel, com vocação de enciclopedista, constrói seu O livro dos nomes. Esses personagens vivem em harmonia ou conflito com essa “tarja” que os acompanha desde o nascimento, e a escritora mineira trata de intensificar as questões de identidade ao cruzar as histórias de todas as figuras, fazendo de sua obra um vitral composto de pequenas jóias, herdeiro de O Livro dos seres imaginários, de Borges.
Marcadores: entrevistas, literatura
Há uma tradição de contistas nos EUA, estabelecida a partir das décadas de 50 e 60, que até hoje rende frutos saborosos à literatura de lá. Alguns exemplos: John Cheever, John Updike, Raymond Carver e os poucos conhecidos por aqui Richard Yates e Denis Johnson – sucessores de uma brilhante geração que teve Sherwood Anderson, Ernest Hemingway e Flannery O’Connor. O território desses autores, queridos por publicações como New Yorker e Esquire, é semelhante: o gosto pelo banal, pela classe média local – o homem comum dividido entre a tradição puritana e o liberalismo social, entre a preocupação com a ascensão profissional e a masculinidade oprimida que induz quase sempre ao adultério – pelo humor do dia-a-dia e o passado que não volta. Quase todos eles, em algum momento, foram chamados em algum momento pela crítica de “o Tchekhov americano”...
Marcadores: literatura
A edição especial da finada revista EntreLivros que acaba de sair, com o tema "Jornalismo x Literatura", traz um texto meu, sobre Hemingway e a criação do mito do autor em ação. Espiem.
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Nessa avalanche de matérias sobre o centenário de morte de Machado de Assis (na foto, pintado por Henrique Bernardelli), as pessoas têm se esquecido de outra comemoração relevante: os cem anos de lançamento de Memorial de Aires, o último romance de Machado, publicado pouco antes de sua morte. Prova disso é que as ótimas edições que a Globo lançou deixaram o Memorial de fora – incluem apenas Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba e Dom Casmurro –, um pecado. Ainda que não chegue ao nível desses três, é um grande romance, injustamente menos estudado (assim como Esaú e Jacó, aliás). Nas palavras de Paulo Francis, é “o livro mais bem escrito em português que há”. Em uma tese de doutorado primorosa e bem recente, que estou lendo agora, o crítico Marcelo Pen traça analogias entre o Memorial e The Ambassadors, de Henry James, o que não é pouco.Marcadores: literatura
O tempo tem promovido mudanças inesperadas em Wynton Marsalis. O músico que surgiu no início dos anos 80 como um fenômeno de pouco mais de 20 anos, brigou com Miles Davis e começou uma sangrenta cruzada pela sacralização do jazz hoje está relaxado, despretensioso e, aparentemente, pouco afeito às confusões de outrora. É o que faz pensar, pelo menos, Two men with the blues, que Wynton divide com o cantor Willie Nelson. O disco ao vivo traz o grupo do trompetista tocando clássicos do cancioneiro norte-americano (de “Georgia On My Mind” e “Stardust” à deliciosa “My Bucket’s Got a Hole On Me”, do mestre Hank Williams) em compassos bluesy, ideais para um boteco de beira de estrada e para a voz de Nelson.
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No site da Bravo!: uma crítica de Homem no escuro, de Paul Auster, e outra de A zona do desconforto, de Jonathan Franzen. E, na Folha, uma reportagem sobre o novo Houaiss, adaptado à reforma ortográfica.
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História do pranto, a memorável novela (85 páginas) de Alan Pauls (O passado) que a Cosac Naify está lançando, é da mesma cepa de obras como Pantera no porão, de Amós Oz, e Uma questão de loucura, de Ismail Kadaré – relatos curtos de crianças envolvidas em conflitos políticos de que pouco sabem. O escritor argentino conseguiu escapar dos métodos habituais do estilo ao explorar a situação de um menino através de sua consciência, e não dos fatos que o envolvem. A narração, escrita em habilidoso discurso indireto e impregnada de sentenças de extensão proustiana, explora a interioridade do personagem, especialmente a sua relação com a dor, tema central do livro: “A dor é sua educação e sua fé. A dor o torna crente. Acredita apenas, ou sobretudo, naquilo que sofre”.
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A edição de julho do jornal Rascunho traz uma crítica minha sobre O despenhadeiro, do colombiano Fernando Vallejo.
Marcadores: literatura
Ao mesmo tempo, último livro de Susan Sontag (morta em 2004), apenas confirma a vocação da ensaísta de se dividir em duas personas – a da pensadora da literatura e da ativista política. E confirma também o quão melhor ela era naquela função do que nesta. É verdade que como figura pública ela não dizia nada errado; talvez estivesse certa até demais. Em seus textos sobre a tragédia de 11/09, dois deles escritos pouco tempo depois dos ataques ao World Trade Center, ela defende posições que qualquer intelectual, engajado ou não, com o mínimo de bom senso, assumiria: foi um ato monstruoso – mais, criminoso – que atingiu milhares de inocentes e ressaltou a arrogância com que os Estados Unidos conduzem a sua política externa etc. Nada a se discutir. Sontag, entretanto, não acrescenta absolutamente nada à discussão. Nenhum pensamento luminoso, nenhuma opinião distintiva.
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É um alento ler a entrevista com o editor da New Yorker, David Remnick (para assinantes), que o Mais! publicou no último domingo. Ao comentar a inevitável questão do futuro do jornalismo, dentro do “duelo” entre a mídia impressa e a virtual, o jornalista evita o exercício de futurologia que o tema se tornou – muito por culpa, aliás, de gente que nunca pisou numa redação e ainda assim insiste em palpitar... – e afirma que, embora continue preferindo ler uma revista em papel, “para aqueles cuja segunda natureza é ler on-line, eu quero estar lá”. E segue: “Não quero fazer previsões idiotas sobre o que vai ser impresso e o que não vai ser impresso, simplesmente não sei. Mas faço questão de estar lá”. Não é à toa que Remnick está à frente da melhor publicação do planeta há dez anos – o site da New Yorker, por sinal, disponibiliza o conteúdo da revista.
No novo filme de Claude Chabrol, Uma garota dividida em dois, atualmente em cartaz, há um personagem, romancista, que, ao ser perguntado por um entrevistador sobre o que o motiva a escrever, responde: a sociedade francesa, que caminha cada vez mais para o puritanismo e a decadência. A resposta poderia servir como carta de intenções do próprio Chabrol. O cineasta francês segue persistindo com ironia os mesmos assuntos de cinco décadas atrás (seu primeiro trabalho, Le Beau Serge, é de 1958), como o conflito de classes e as vicissitudes que acompanham especialmente a burguesia – jogo de interesses, relações de poder, a necessidade de manipular a imagem perante a opinião pública. Esse escritor, Claude Saint-Denis (François Berléand), recluso e respeitado, sucesso de público e crítica, se envolve com a garota do título, Gabrielle (interpretada pela adorável Ludivine Sagnier), que faz a meteorologia do telejornal local. Casado e receoso de dar início a uma relação séria, Saint-Denis mantém Gabrielle à distância, e ao mesmo tempo ela conhece Paul Gaudens (Benoît Magimel), playboy temperamental e violento, herdeiro de uma família com séculos de tradição na nobreza.
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Nem só de bobagens vive a internet, felizmente. De toda a infinidade de informação é possível encontrar textos, vídeos e outros arquivos de qualidade, alguns raros e, no mínimo, curiosos. É o caso do pouco assistido curta-metragem Film, lançado no festival de Veneza em 1965, com roteiro de Samuel Beckett, direção de Alan Schneider e atuação de Buster Keaton, então com quase 70 anos e em um dos últimos trabalhos antes de sua morte, em 1966. Diz a Wikipedia que a idéia original de Beckett era que Chaplin interpretasse o personagem principal. Seria uma pena, já que Keaton, com seu jeitão de clown com dor de barriga e sem humor, encarna bem o personagem principal. No vídeo, ele é perseguido pela câmera – ou, na verdade, por um olho que remete a O cão andaluz, de Buñuel e Dalí –, e esconde dela seu rosto. No fim da história, descobre que o olho é seu próprio, ao se bater consigo, envelhecido e hesitante.
A edição de julho da Bravo! (Marcel Duchamp na capa) traz um artigo meu sobre Diário de um ano ruim, de J.M. Coetzee. A revista, aliás, está de site novo. Os arquivos antigos ainda não foram migrados - para o caso de alguém clicar em um link daqui e não entrar.
Marcadores: Bravo, literatura
O principal prazer que a “política de heterônimos” de Fernando Pessoa provoca talvez seja o da multiplicidade de pontos de vista que cada uma de suas personas representa. Tido pela crítica como o exemplo ideal da fragmentação mental, espiritual e intelectual do homem moderno, o poeta português se dividiu, mais exatamente, em 72 – a maioria desses heterônimos se perdeu ou não teve textos registrados. Os mais conhecidos e publicados (após a sua morte) são o pastor e pastoril Alberto Caeiro, o modernista Álvaro de Campos e o horaciano Ricardo Reis (é possível incluir na conta o prosador existencialista Bernardo Soares, autor do Livro do desassossego e classificado por Pessoa como semi-heterônimo). Cada um teve a biografia e a personalidade demarcadas, em vários pontos tão contrastantes entre si que é difícil pensar que saíram todos da mesma mente (Octavio Paz declarou que não conseguia imaginar alguém mais diferente de Pessoa do que Caeiro, o que é discutível). Os leitores costumam eleger seus favoritos pessoais. Alguns chegam a admirar certo heterônimo em detrimento de outro.Marcadores: literatura
Frank Sinatra tinha verdadeira aversão pelo rock n’ roll – certa vez, definiu o gênero como “a mais brutal, feia, desesperada e viciada forma de expressão que eu já tive a infelicidade de ouvir”. Fácil entender por quê. Se não chegaram a atrapalhar efetivamente sua reputação, os jovens cabeludos e barulhentos transformaram o cantor de Hoboken em um dinossauro precoce, uma espécie de modelo de bom mocismo para sogra ver. Engraçado é que os ideais que esses grupos buscavam alcançar eram especialidades de Sinatra. Temperamento de popstar, casos com deusas de Hollywood, uma multidão de fãs taradas, letras repletas de duplo sentido, jogos de palavras e referências sexuais (a cargo de Cole Porter, Irving Berlin e Ira Gershwin, entre dezenas de outros gênios), arranjos ousados (sobretudo os do maestro e arranjador Nelson Riddle), canções melodiosas e grudentas, grande parte delas batendo nos três minutos, ou seja, perfeitas para as rádios.Marcadores: música
Não sobre o amor, a peça de Felipe Hirsch (O avarento, A educação sentimental do vampiro) em cartaz no CCBB-SP, versa sobre como tudo o que fazemos e pensamos, como cada idéia ou atitude, cada decisão, está impregnada de amor. E amor aqui não quer dizer apenas desejo romântico por uma pessoa do sexo oposto, mas uma série de sentimentos que vai desde o egoísmo puro e simples até o processo de criação artística, passando pelo exílio, pela nostalgia e pelo idealismo político e intelectual. Na trama, baseada nas cartas do escritor formalista Victor Shklovsky para Elsa Triolet (irmã de Lilia Brik, que era amante e musa de Maiakovski), dois russos exilados na Alemanha trocam cartas. O homem (Leonardo Medeiros), o próprio Shklovsky, passa os dias trabalhando em cartas para Alya (a bela Arieta Corrêa), que, no entanto, pede a ele que escreva sobre qualquer assunto, menos amor. “Pare de escrever sobre o quanto, o quanto, o quanto, o quanto você me ama, porque, no terceiro ‘quanto’, eu começo a pensar em outra coisa”, reclama ela.
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A edição de junho do jornal Rascunho traz uma crítica minha de Contos completos, de Flannery O'Connor.
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Escritores registrados e com carteira assinada podem parecer um absurdo, produtos de uma atribulada trama de ficção científica, mas não estão muito longe de surgir às pencas Brasil afora. Está tramitando na Câmara um projeto de lei do deputado federal Antonio Carlos Pannunzio (PSDB-SP) que prevê a regulamentação da profissão do escritor. O projeto, registrado com o número 4641/98, foi aprovado na Comissão de Educação e Cultura da Câmara e, cerca de um mês atrás, rejeitado na Comissão de Trabalho, sob a alegação de que não existe uma profissão reconhecível de escritor. Agora deve ser encaminhado para a Comissão de Constituiç